Cantava de verdade porque só cantava para ela. Era desde esse egoísmo radical que Lhasa se fechava tão dentro de si mesma, escarbando sem cessar no buraco da solidão para, ali ao fundo, nos encontrar a todos. Nascida numa remota cidade do estado de Nova Iorque a princípios dos setenta, passou toda sua infância deambulando por Norte América num autocarro escolar reconvertido no lar de um escritor mexicano, uma fotógrafa judeia, quatro meninas, três gatos, um loro, dois tartarugas e um cão. A ausência de televisão, electricidade, água corrente ou telefone era ocupado por longas horas de leitura e improvisados espectáculos nocturnos. Uma experiência que marcaria para sempre a vida e a obra desta artista que nunca perderia sua vocação nómada, pese a que com 19 anos se instalou definitivamente em Montreal. Tal vez de seu nome vinha-lhe esse gosto pelas músicas tristes, tão desoladoras às vezes como as frias ruas da capital do Tibet, mas carregadas de uma espiritualidade e um sossego dificil de explicar, como um passeio nocturno através das desertas ruas de Lhasa. Uma voz grave e escura que te deixava sem alento, como quando um desconhecido te acerca uma navalha ao pescoço no mais fundo de uma rua sem luz. Sua música era assim, te assaltava sem perguntar e deixava- te desangrar suavemente com cada punhalada que emitia sua garganta. Dava o mesmo que fossem rancheras, country, músicas ciganas ou chanson francesa, porque em realidade não se tratava disso, nem de cantar em espanhol, inglês ou francês. As línguas e as melodias eram só convenções universais às que Lhasa recorria para nos fazer participar de sua honesta sensibilidade de artista radical: de alguém que sofre e que deseja sofrer mais e assim é feliz.
Lhasa de Sela deixou-nos o passado 1 de janeiro depois de dois anos lutando contra um cancer de mama. Tinha 37 anos e três discos imensos. Sem dúvida, a partir de agora, o ano só pode nos trazer melhores notícias.
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